Feminismo = Liberdade

AVISO DE POSSÍVEL TEXTÃO – dependendo do seu nível de leitura

large

Descobri-me feminista aos 16 anos. Em uma conversa casual com a Veridiane – olha ela aí, de novo. (Digo que “descobri-me feminista”, pois, acredito que já cresci sendo feminista, mas nunca sabendo como lidar e muito menos o que era).
Nasci em uma família extremamente patriarcal, mesmo com todas as chances de não ser assim. A maioria são mulheres – tenho quatro irmãs – e a pessoa que trabalhava fora e trazia o dinheiro para o sustento do lar era minha mãe. Mesmo assim, a pessoa que mais comandava em casa era meu pai. A palavra final era sempre a dele, por mais que ele não fizesse nada para organizar a casa e a vida das pessoas ao redor.
Lembro de pensar, “por que minha mãe trabalha e meu pai decide o que é feito com o dinheiro?”. E lembro mais ainda de ter aprendido a não questionar isso, não questionar nada.
Cresci aprendendo a maneira com que as mulheres deveriam ser – comecei a arrumar a casa e lavar a louça aos oito anos, enquanto via meu pai chegar em casa e simplesmente ir dormir. Ouvia ele berrando que era meu serviço limpar as coisas e que ele queria tudo limpo, e iria conferir depois. Cresci tendo que respeitar as ideias, opiniões e falas que saíam de sua boca. Aprendi que deveria respeitá-lo, mesmo ele não fazendo o mesmo comigo e qualquer outra pessoa. Memorizei que não deveria questionar ou reclamar de nada, deveria concordar instantaneamente, por mais que não concordasse com aquilo.
Lembro de pensar que nada disso fazer sentido para mim. E de não tentar fazer nada para mudar isso.
As questões de “se você não quer cozinhar, como irá fazer quando casar?”, que eram feitas quando eu me recusava a aprender a cozinhar um arroz, por exemplo – que só aconteceu quando eu tinha uns 12 anos – sempre surgiam, não importava a ocasião.
Quando era criança, não podia conversar muito com as minhas irmãs, ou com a minha mãe. Se estava mal em alguma noite, eu deveria acordar minha mãe da maneira mais silenciosa que havia encontrado – no caso, engatinhando até seu lado da cama, cutucando-a, chamando-a para o banheiro para, então, falar o problema – pois, o sono do meu pai era mais precioso que tudo.
Meus pais se separaram quando eu tinha 11 anos. E toda a pressão de ter um homem em casa e fazer tudo para o seu bem-estar acabou. Éramos só as mulheres. Livres. Para conversarmos, andarmos como quisermos e comer o que bem entendermos – sem levar em total consideração a opinião do meu pai. Porém, as questões de cozinha e limpeza da casa – que eu deveria aprender para quando eu casasse – sempre voltavam.
Foi em 2014, cinco anos depois da liberdade, que tive a conversa que me abriu os olhos para o feminismo. Veio por meio da Veridiane, a questão de que, talvez, eu fosse feminista. Em uma conversa sincera com ela, lhe contei toda minha história de infância – e como havia mudado e minhas opiniões sobre cada coisa – e foi quando ela virou e falou “acho que, assim como eu, você é feminista”.
Honestamente, nunca havia ouvido falar nisso. E comecei a pesquisar. Na internet, o feminismo possui diversas – muitas mesmo – definições, e aqui estão algumas que encontrei:

1 – Sistema dos que preconizam a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher ou a igualdade dos direitos dela aos do homem.
Site Dicionário do Aurélio – https://dicionariodoaurelio.com/feminismo
2 – Feminismo é um movimento social e político que tem como objetivo conquistar o acesso a direitos iguais entre homens e mulheres e que existe desde o século XIX.
O que é feminismo? Carta Capital – http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-que-e-feminismo-2198.html
3 – Feminismo é um movimento político, filosófico e social que defende a igualdade de direitos entre mulheres e homens.
Significados – https://www.significados.com.br/feminismo/
4-
1. Doutrina cujos preceitos indicam e defendem a igualdade de direitos entre mulheres e homens.
2. Movimento que combate a desigualdade de direitos entre mulheres e homens.
3. Ideologia que defende a igualdade, em todos os aspectos (social, político, econômico), entre homens e mulheres.
Dicionário Informal – http://www.dicionarioinformal.com.br/feminismo/

Entretanto, honestamente, acredito que toda e qualquer definição muda de pessoa para a pessoa. Por mais que existam pesquisas e termos – relativamente certos – a subjetividade é quem nos diz o que cada palavra da língua significa.
No começo do ano passado, na faculdade, realizamos um mini (mini mini mini) documentário sobre feminismo nas redes sociais, ou #FEMINISMO. A ideia era abordar como a luta atua no meio da internet e como isso poderia ajudar, ou não, e afetar os ideais e a luta em si.
Lembro que a primeira pergunta que fazíamos para as fontes – tanto a favor quanto contra o feminismo – era “o que é o feminismo para você?”. Creio que tenha sido uma pergunta importante, pois, cada uma delas nos respondeu de uma maneira completamente diferente da outra.
Para mim, feminismo representa liberdade. A tão sonhada liberdade que eu tive dentro da minha própria casa após a separação dos meus pais, mas em um nível totalmente novo e imenso. Expandida em um milhão e atingindo todos os lugares do mundo. Uma liberdade que me permite ser quem eu sou, do jeito que eu quiser, aonde quer que eu esteja.
Ao mesmo tempo que fazíamos o documentário, escrevemos um artigo sobre feminismo, e uma das coisas que escrevemos foi:

Feminismo, na significação literal, significa uma pessoa que acredita na igualdade econômica, política e social dos sexos. Porém, para quem faz parte deste mundo, que aceitou e estampou que se aceita feminista, é algo a mais. Para a maioria das mulheres, é a busca por conquistar o direito de escolha. É poder dizer: “tudo bem eu querer fazer algo diferente com a minha vida, porque, bem, é a minha vida e a de mais ninguém”. É o poder da escolha, da dúvida e da certeza, sem qualquer interferência externa. […]O feminismo ensina que você deve fazer o que quiser, desde que não interfira na vida alheia. Ele mostra às mulheres que se elas quiserem ser mães, tudo bem, e se elas não quiserem ser mães, tudo bem também. Ele dá o direito de escolha do que fazer com a sua vida.

E a parte mais legal de tudo isso é, que não sei vocês, mas quando eu comecei a aprofundar mais na questão do feminismo – e na luta -, ampliei isso para uma liberdade para todos. Ele me ajudou a ver que todos são livres para serem e fazerem o que quiserem – desde que, óbvio, não afetem a vida de outra pessoa.

large-1
Ele mostra como questões ensinadas e aprendidas desde criança sobre a vida “feminina” – entre aspas porque entra na questão de gênero – são impostas por uma sociedade que quer escolher como devemos ser, pensar e agir. Cria-se uma ideia de como devemos viver pelo simples fato de sermos mulher – coisa que, na maioria das vezes, não se aplica ao mesmo nível para os homens.
Okay, ambos os gêneros lidam com problemas de roupa e brinquedos “de menino e de menina”? Sim. Porém, quase nunca vejo imposto aos homens o trabalho de uma vida – como é colocado para as mulheres a maternidade. As mulheres devem almejar serem mães, senão, nunca estarão completas, enquanto, o homem, é coagido a arrumar um emprego bom e que forneça uma boa renda. Se ele decide ser pai – é uma festa, pois, “que cara ótimo” -, se ela decide não ser mãe – “mas, poxa, é o maior amor da sua vida”.
Isso também me ajudou a lidar com críticas negativas e desnecessárias, evitar fofocas e julgamentos. “Fulano está saindo todo final de semana”. E daí? O dinheiro é seu? As festas que ele vai são suas? Não. Pois, bem, então, fulano tem todo o direito de fazer isso.
“Nossa, tal pessoa pintou o cabelo de azul”. Se você não gosta, problema seu. Tal pessoa gosta e se ela gostou da mudança, então, ela está radiante e totalmente bela.
Podem parecer respostas grossas, mas são libertadoras. Ao mesmo tempo que você livra alguém de um julgamento desnecessário, você se livra de picuinhas e estresses sobre algo que não lhe diz respeito.
Com o feminismo, eu percebi que eu comando minha vida. Claro que existem coisas que terei que fazer mesmo não gostando – para sobreviver, a maioria delas – mas, essa é a vida. Porém, no que diz respeito à minha vida, meu corpo e minhas escolhas, eu devo ser livre e escolher aquilo que eu quero. E, quase sempre, devo ser egoísta – mesmo odiando egoísmo, percebo que ele se faz necessário em momentos que algo que você esteja fazendo pelos outros, esteja lhe prejudicando, de qualquer maneira possível.
Também aprendi aquela incrível frase clichê, porém, totalmente verdadeira, “eu não sou obrigada a nada (e os outros também não são)”. Isso me ajudou a ver que não é porquê alguém fez algo por mim, porque ela quis, que eu devo algo a ela. Se eu digo que devo algo, ok, então, devo. Mas, se a pessoa fez algo criando uma expectativa de que eu iria corresponder e fazer o mesmo ou alguma outra coisa, ela está errada. E também, ao mesmo tempo que não sou obrigada, a outra pessoa também não é. Não posso cobrar algo de alguém que não seja necessário. Não posso cobrar ações e respostas das quais eu criei totalmente expectativas na minha cabeça.
Todos somos livres e devemos garantir a liberdade do outro, em total igualdade com a nossa.
Claramente, existem temas mais complexos a se tratar além da liberdade alheia – vertentes, feminismo negro, feminicídio, machismo na sociedade em geral e em culturas, igualdade salarial, aborto e questão de gênero (assuntos que eu, realmente, acho que andam de mãos dadas em qualquer conversa) – porém, para o início de uma conversa apresentar como o feminismo liberta, ao invés de lhe aprisionar em uma bolha desconstruída, pareceu-me a primeira coisa a se fazer  e a introdução de possíveis assuntos futuros.
Como sempre, trago dois links – de dois textos – sobre feminismo e liberdade, um que totalmente contradiz a frase “não sou obrigada a nada”, a qual utilizo de maneira equivocada no texto, mas que é maravilhoso de uma maneira incrível – e me ajudaram muito na época do documentário e artigo sobre feminismo.
Você não é obrigada a nada – Anna Vitória Rocha
Você é obrigada, sim – Paloma Engelke

Espero apresentar mais textos assim, porque amo desenvolvê-los.
Até a próxima!
Giulia

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s