Cafés, chás e tentativas

Sempre gritei, com orgulho, que não gostava de café. Que não me renderia aos prazeres e tentações da cafeína – de deixar seu corpo e parte do seu cérebro funcionando enquanto a maior parte de você está adormecida.
Rio do meu pensamento anterior enquanto olho para o pequeno copo de plástico cheio de café na tentativa falha de manter-me acordada.
“É o antialérgico que tomei hoje”, tento redimir-me comigo mesma. Porém, não há mais volta. Rendi-me a esses prazeres que tanto me assombraram por anos. E mesmo assim, ainda tento criar desculpas e argumentos do porquê isso é necessário. (Quando, na verdade, eu só o quero tomar mesmo).

2c17bc5300c58f99ea4123e9cda05bcdIlustração: Henn Kim

Lembro-me do processo lento e progressivo que tive até, efetivamente, assumir que tomo café (com leite com achocolatado, de preferência, por favor).
Primeiro, o chocolate da máquina do estágio com umas três gotas do café feito toda manhã. Depois, o cappuccino da máquina com mais gotas que anterior do café que está no bule.
Recordo-me de como foi descobrir a delícia que era comer Bel Vita ou um pão de queijo acompanhado de café. E de surpreender-me ao notar que essa rotina poderia ser uma ao qual eu tinha a possibilidade de me acostumar. E até gostar.
Aprendi os truques. Tomar antes que esfrie (fica pior ainda). Misturar com um sachê de açúcar. Controlar a cara feia.
A bebida, quente, ainda desce amarga pela minha garganta. Ainda cai como chumbo em meu estômago. Entretanto, me dá a falsa noção de estar desperta. E agarro-me a ela, agora, quando meus olhos piscam e a cabeça tomba, pesada.
Acostumei-me. Agora, quando me oferecem um café, analiso bem. Ao invés do “não” automático, seria tão ruim assim? Talvez seja necessário, penso. E, assim, ocasionalmente, aceito. Permitindo, também, olhar de outra maneira para a bebida que eu mais odiava no mundo e conceder a liberdade que ela entre, gradualmente, em minha vida.
Demorou cerca de quatro anos. Mas, cá estou. Rindo de nervoso para o próximo copinho com café que irei tomar.
Planejo-me, penso e espero ir em uma cafeteria. Pedir uma xícara de café e sentar tranquilamente, lendo um livro – algo que sempre admirei, mas nunca consegui.
E por mais que tenha tido esse progresso com o café, algo que ainda me prende nesse mundo de “bebidas que não suporto” é o chá.
Experimentei. Duas, três, quatro vezes. Não me desce. Tentei, mudei minha opinião, passei a admirar e “achar chique” quem consegue esquentar uma água, colocar o sache e ficar tranquila com a bebida.
Tentei de novo. Nada. Não sinto gosto, não acostumo, não vejo vantagem nenhuma. Achei melhor deixar para lá e dar chance para experimentar outras coisas. Mais legais, mais calmas, que me trarão algo, ou até mesmo nada.
Aceitei que sempre que alguém me oferecer chá, terei de dizer “não, obrigada” e até, se necessário, liberar o “não gosto, obrigada”.

a9c0791dbc97e5418cf6548f59b39947Ilustração: Henn Kim

Há coisas na vida que devemos nos permitir gostar e outras que devemos nos proporcionar evitar. Aprendi a gostar de café e compreendi que não gosto, realmente, de chá. Como também revivi esse processo e firmei esses entendimentos com diversas outras coisas – e diversas pessoas por aí.
Tem pessoas, manias, coisas e experiências que gosto, acostumei, e quero ao meu lado, em minha vida, inserida na minha rotina. E outras que evito e deixo ir – e serem os gostos de outras pessoas.
Esses são processos naturais que ocorrem quando necessário. Notamos todas essas ideias e gostos quando estamos prontos – sem nos apressar e nos atrasar em momento algum. E o mais importante: descobrimos quando, como e até onde insistir em um gosto, algo ou alguém.
Com o chá, a tentativa não durou dois meses e terminou em malogro. Com o café, a tentativa levou anos e obteve sucesso.
Tudo tem seu tempo. Tudo tem seu gosto. Aprendi os meus e continuo-os aprendendo. O esforço é eterno – e nunca deve ser esquecido (tanto quando há triunfo ou quando resulta em ruína). Devemos aceitar e apreciar a tentativa. E sempre, sempre, sempre, devemos tentar.

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