Textos

Mulher

Sou jornalista.
Sou mulher.
Não questionam-me sobre os quatro anos de faculdade.
Como lidei com trabalho e estudo.
Quais foram meus aprendizados e como os aplico em minha vida.
Perguntam-me sobre a criança em meu colo, que não é minha.
E por que não é minha?
Aonde está a minha? A terei um dia?
Querem, verdadeiramente, saber sobre a aliança, inexistente, em meu dedo.
Por que? Por quanto tempo?
Se não correr, ficarei para trás.
Ficando para trás, adiarei a maior maravilha da minha vida.
Não tenho face.
Não tenho nome.
Não sou Giulia.
Sou mulher.
Pura e simplesmente mulher.
Santa e para casar, mulher.
Mãe, mulher.
Tia, mulher.
Tantas designações que não queria.
Que ainda não quero.
Que não sinto-me pronta para isso, ainda.
Mas, questionam-me.
Querem saber.
Mulher, quando há de tornar-se mulher?
Na significação deles de mulher
Mulher, quando hei de tornar-me mulher?
Mas, oras, já não sou?
Atingi a maioridade.
Comecei a trabalhar, a cursar faculdade.
Deixei de ser menina e tornei-me mulher.
Pois, não para eles.
Mulher, quando há de tornar-se mulher?
Completa, mulher.
Casada, mulher.
Mãe, mulher.
Não, ti, mulher.
Jornalista, mulher.
Independente, mulher.
Feminista, mulher.
Não.
Mulher, quanto há de tornar-se mulher?
Grito-lhe que nunca.
Mesmo sabendo que sou mulher.
Mulher, mulher.
Com uma face. Uma história.
Só minha.
Que interessa a mim, e é isso que importa.
Sou mulher, afirmo.
Mulher, sou.
Sou jornalista.
Sou Giulia.
Sou mulher.

Florescendo sob tempestades

Eu pediria desculpas. Você sabe disto. Porém, enquanto olho o meu reflexo nesta janela toda pingada pelas gotas da chuva, percebo que não há sobre o que pedir perdão. Não há mais nada para se desculpar.

Tudo que havia, toda nossa história, está sendo apagada neste exato momento por esta chuva que insiste em transformar o seco, em molhado; o firme, em instável. Que leva tudo que encontra no caminho. Que leva nossos momentos, nossos sorrisos e nossas tristezas. Apaga e borra toda e qualquer palavra dita e promessa proferida.

Graças a Deus, esta chuva está levando tudo. Sabe-se lá o que seria de mim se tivesse que me livrar disso sozinha.

As gotas caem na janela e percorrem todo o vidro como lágrimas caindo por uma bochecha. Não sei se algum dia entenderá essa comparação – já que morres de orgulho por nunca ter chorado por nada -, mas se um dia entender, espero que esteja sentindo uma dor menor do que a que sinto agora.

Esta dor me dilacera o peito. Mas, sei que é a mesma dor que vai-se com a chuva.

Porque, como qualquer fenômeno natural, a dor some e o amor volta a florescer. Depois das tempestades vem o renascimento e tudo torna-se tão belo que quase esquecemos o quão feio pôde ficar.

Observar-te ir é a pior cena que eu poderia sequer imaginar. Mas, a certeza de que uma mais bela surgirá é o que me mantem aqui. Observando a chuva embaçar a minha visão da tua partida. Observando ela levar-te para longe de mim.

Como ela quis. Como deve ser de agora em diante.

Fecho os olhos e conto.

Um, dois, três, quatro.

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto e antes que eu perceba, esta foi a nossa despedida.

Uma nova primavera há de chegar. Mais rápida do que sua partida.

E tudo há de florescer novamente.

Como já aconteceu antes. Como sempre deve ser.